Crianças do rio
A chuva acordou tarde no dia 15 de março de um ano que partiu há tempos, numa viagem de barco que durou vários rios. Era mais de meio-dia quando deu as caras, e parece ter vindo apenas para nos informar que não queria conversa com a paisagem. Veio breve e foi embora sem ao menos permitir um registro em fotografia. Esperávamos por ela para nos distrair da monótona companhia da solidão, que andava viajando nos rios por aquela época e deu de a gente embarcar no mesmo navio.
Ainda lamentávamos a partida da chuva quando começaram a chegar as crianças. Era no Estreito de Breves, num eito de águas bem perto de onde o rio faz uma vírgula, no longo caminho entre Belém e Macapá. Com seus barquinhos desafiando a maresia, elas vieram assediar nosso navio. Nós as vimos do tombadilho, eram meninas e meninos, pequenos, grandes, morenos, caboclos. Vieram buscar comida e presentes dos navegantes.
De dentro do navio, nós lhes lançamos sacolas plásticas com biscoitos, pedaços dormidos de pão, laranjas, sandálias usadas, camisas, caixas de fósforos e até um velho baralho, manchado e obsoleto. Era o que tínhamos. É o que os navegantes que viajam rios pela Amazônia sempre têm. Jogamos também três livros, esperançosos de que lhes servissem como alimento para a alma, e continuamos viagem imaginando a leitura na rede, na sombra da samaúma, na beira do rio, onde o barquinho espera paciente por outro navio.
Na longa estrada do rio, fomos vendo terminar tudo o que havia para lhes dar. E muitas crianças tiveram que remar de volta à margem, sem o presente esperado de um navio esperado pelos vários dias em que atracamos em Belém. Foi quando uns navegantes que nunca perderam a infância tiveram a feliz idéia de lhes jogar balões. E então os balões começaram a voar do navio um depois do outro, como um bando de pássaros multicoloridos que mansamente pousavam nas águas para ser capturados pelas crianças.
Tomara que a solidão, farta de ver as nossas caras, não tenha se jogado nas águas e se agarrado a um dos barquinhos em busca de outra alma feliz para perturbar.
A foto é do Manoel do Vale. Hoje não consegui colocar o crédito ao lado da foto.
Escrito por Luli às 15h54
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