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Triste fim da natureza

Há dias que estava de olho nas jacas do terreno baldio ao lado de casa. Aliás, baldio é uma palavra esquisita. No terreno não há casa, portanto não há vida humana habitando o lugar. Mas há quatro árvores morando lá. E se, segundo o dicionário, baldio quer dizer “que não é aproveitado”, então certamente que não é aproveitado por gente, porque as quatro árvores, os bem-te-vis, os japiins, alguns pequenos pássaros e até um gavião aproveitam muito bem o espaço.
Voltando... há muito eu queria uma jaca daquelas, mas nas outras temporadas os meninos de um bairro distante chegaram primeiro e levaram tudo. Pois ontem à tarde atravessei o cercado e, de ripa em punho, cutuquei uma jaca “de vez” até ela cair. Só então percebi a desgraça da pobre família das quatro árvores. Foram todas assassinadas. Ou melhor, estão sofrendo homicídio lento, aquele que dura meses e vai fazendo o ser definhar devagar. Cavocaram o tronco da infeliz família. Cavocaram fundo e em círculo, para que as quatro vão morrendo sem parecer que foi crime. Primeiro minha amiga jaqueira deixará de dar frutas, depois vai perder as folhas, seus galhos ficarão magros, e por fim vai apodrecer e cair. Provavelmente o dono do terreno, suspeito em potencial, quer construir ali uma casa, um prédio, pensa que finalmente vai tornar o terreno útil.
Fiquei triste. Fiquei mesmo abalada com o que vi. Encabulei-me com a jaca que trazia nas mãos, parecia que me aproveitava da fragilidade da minha amiga jaqueira, senti-me participante do crime, não apenas por colher a fruta, mas por morar ao lado e não ter visto nada. Passei meses me comprazendo com a beleza do vento soprando os cabelos da jaqueira, com a alegria dos japiins, que passaram a vir em grupo voejar entre os galhos, cheguei a escrever sobre isso algumas vezes... enquanto toda aquela vida estava em perigo.
Sinto que isto desencadeia em minha vida uma grande crise. Questiono a devastação da Amazônia, a exploração irracional, os projetos que ameaçam a sua soberania, mas não pude defender ao menos as pobres árvores que vejo todos os dias no quintal ao lado de minha casa. Perdi a vontade de comer a jaca.Perdi mais um pouco do meu respeito pelo ser humano.
Escrito por Luli às 19h46
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Fotos: Manoel do Vale
Domingo no Chalé
O domingo foi quente demais. Finalmente terminou o inverno, o que, pra mim, não traz muita alegria. Minha alma gosta é de chuva. Sorte que é que há uma insinuação de primavera no céu e na terra destas paragens. Lula Jerônimo, toda vez que me encontra, ri de mim: “E agora, sem chuva?” Acho que ele pensa que não vou conseguir atravessar incólume os seis meses de verão.
Pra dizer a verdade, quase não consigo atravessar este domingo. Então fomos (eu, Manoel, Lucas e Júlia) invadir o chalé do Carlos, um dos meus vizinhos do lado esquerdo. Aliás, que idéia genial a do Carlos. Um achado dentro desta Amazônia que a gente quer sustentável.
O chalé, bem em frente ao Sebrae, foi construído para ser exposto na Rodada Internacional de Negócios da Madeira, no ano passado, mas com a intenção de ficar lá para todo o sempre, transformado num espaço multifuncional. Toda a estrutura é de maçaranduba e cumaru, madeiras encontradas em abundância na Amazônia. A idéia é que o lugar tenha hidromassagem, sauna, ducha, queda d’água, banho de ofurô, bar, biblioteca, adega, espaço para exposição artística...
As reticências do outro parágrafo querem dizer que o chalé terá ainda muitas outras coisas, mas há quase um ano parado, procura parceiros para entrar em funcionamento. Um desperdício de tempo. Eu, se tivesse recursos, já teria entrado em sociedade com o Carlos há muito tempo.
Enquanto não temos pernas para isso, temos ido lá tomar ducha por entre as bananeiras. Um luxo. Uma massagem na alma. Sensação de liberdade absoluta. Meu amigo Carlos é um sonhador que sabe colocar o sonho em prática. Veio da Bahia e provavelmente nunca mais vai sair da Amazônia. Transformou nossa quente tarde de domingo em um momento de prazer total. Domingo que vem vou levar umas cervejas.
Escrito por Luli às 19h23
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