O Vôo da Garça


                                               Ruínas em Mazagão Velho

 

Foto: Alexandre

 

 

As ruínas de uma capela do século 18 estão sendo estudadas por arqueólogos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Vila de Mazagão Velho, há pouco mais de 50 quilômetros de Macapá. Celso Dias, que há alguns anos habita aquelas redondezas, disse-nos que foram encontrados restos mortais de militares sob o solo, dentro da capela. As patentes foram identificadas pelos botões que ficaram das fardas. O pessoal de Mazagão é que não nos pareceu satisfeito com a exploração. Soubemos que ninguém da comunidade foi consultado para que a pesquisa arqueológica se instalasse no lugar. Nós, que estivemos por lá, perdidos pela festa de São Tiago, perguntamos o seguinte: tudo o que tem sido encontrado tem sido levado pra onde? Porque o povo de Mazagão não sabe. Nem nós.

A povoação de Mazagão Velho se deu no início do século 18, quando dezenas de famílias vieram da Mauritânia, fugindo da guerra entre mouros e cristãos. A festa de são Tiago atrai para a velha vila milhares de pessoas, todos os anos. Veja-nos visitando as ruínas da capela. 

 

 



 Escrito por Luli às 16h37
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Olhar sobre o rio

                              

 

O pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho, filho de um dos maiores revolucionários da história do Brasil, o Cavaleiro da Esperança Luiz Carlos Prestes, esteve em Macapá dia desses. Disse-nos que achou belíssimo o nosso rio, ele, que anda por todos os cantos do país e conhece rios incontáveis. Que bom receber em nosso torrão um visitante sensível aos encantos selvagens da Amazônia. Conheceu os mais recônditos cantos da fortaleza de São José e demonstrou grande interesse em conhecer outros lugares do Estado, como as ruínas da base aérea de Amapá e o cemitério nazista que está à beira da cachoeira de Santo Antônio, no rio Jari. Luiz Carlos levou daqui o nosso livro, Lugar da Chuva, e através dele, e da visão do nosso rio, nunca mais vai esquecer do Amapá, estamos certos.



 Escrito por Luli às 18h01
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Presente do Peixe-orelha

 

 

 

 

 

Edson Natale nos presenteou com este seu belíssimo livro: “A história do incrível peixe-orelha”, sensível e envolvente. Sensível porque trata da questão da preservação dos rios, e envolvente porque faz isso numa linguagem gostosa, solta como as águas dos rios por onde nada o peixe-orelha.

 

A ilustração, de Barmack, encheu os olhos de nossa pequena Júlia e de nossas grandes Maria e Olívia. Fizemos a leitura na cama, antes de dormir, e quando acordamos, pela manhã, nós, que amamos os rios, sobretudo os da Amazônia, tínhamos nos transformado em peixes-boca, e por onde formos, de agora em diante, levaremos às pessoas as idéias do peixe-orelha, de fazer todo mundo um pouco pela preservação desse grande bem que é a água doce.

 

Edson Natale tem 41 anos, e além de escritor é músico, pesquisador e gerente de música do Instituto Itaú Cultural. Carlos Barmack é artista plástico, compositor e educador. Desenha, escreve poemas, compõe melodias e sonha ser astronauta desde criança.



 Escrito por Luli às 15h33
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Foto: ânima

                                                           

                                 São Tiago na velha Vila de Mazagão

 

São Tiago está esperando nossa chegada, montado em um cavalo que pisoteia a piçarra da pequena rua cor de poeira que corta a velha vila de Mazagão. Faz 226 anos que está ali, e tem nos esperado durante os últimos dez. Avistamos de longe a crista da pequena capela, o cavalo fazendo círculos em torno de si mesmo e de olhos na multidão que contempla o seu cavaleiro.

 

Desde o baile das máscaras que estamos por aí, olhando a paisagem, prontos para voltar na hora do Círio. São Tiago vai à frente e comanda o séquito de cavaleiros de branco e vermelho e outros de branco e verde, lembrando a batalha travada na África há três séculos entre mouros e cristãos. Ontem fomos acordados na madrugada pelo espocar dos fogos de artifício e dos tiros de espingarda, e a este sinal vimos o cortejo amanhecido nas festas do arraial, guiado pelos tocadores de tambor, seguir para a casa de São Tiago, onde ia dançar o Vominê. Lá os visitantes tomaram chocolate quente com bolo, servido pelos donos da casa, como reza a tradição da festa, seguiram para a igreja, para louvar os santos no altar e ainda depois entraram incansáveis pelas casas das autoridades da vila, também para dançar o Vominê.

 

Quase três séculos atrás, a pequena vila de Mazagão Velho foi povoada por africanos fugidos da Mauritânia, no continente africano, quando os portugueses lá ocuparam uma área, construíram o Castelo de Mazagão e tentaram impor a religião cristã aos habitantes do lugar, quase todos muçulmanos. Os colonizadores de Mazagão Velho eram cristãos descontentes com a guerra Por outro lado, o descontentamento com o domínio lusitano e a imposição do cristianismo foi razão suficiente para os mouros darem início a uma guerra que até hoje é rememorada através da festa de São Tiago.

 

É 25 de julho. As ruas estão acesas sob o sol do verão da Amazônia. O rio Mutuacá já ouviu a missa campal e agora brinca de salvar as crianças do implacável calor. Nós ficamos por baixo das árvores, contando os ninhos dos japiins, olhando passarem os risos das moças morenas sob os olhares dos morenos rapazes. Nas esquinas e por todos os beirais há gente feliz à espera da passagem do Bobo Velho, um espião mouro que cavalgará toda a extensão da rua por onde passou o Círio. Descoberto pelos cristãos, o Bobo é apedrejado. Revivendo o episódio, o povo de Mazagão lhe atira bagaços de laranja.

 

Ao final da grande batalha, São Tiago e São Jorge caminham no meio do povo. As músicas dos bares de Mazagão Velho vão varar a madrugada, embalando a diversão popular. Nós vamos ficando, e com Tiago e Jorge, vamos no rumo da música, no rumo da lua que clareia na noite as águas do rio Mutuacá. 

 

 



 Escrito por Luli às 17h04
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