O Vôo da Garça


Ideologia da floresta

 

 

Antônio Alves, o Toinho, traz na alma toda a poesia do Acre. A poesia das águas, dos ventos, do povo e das florestas do Acre. Seu jeito de falar da Amazônia supera os gastos discursos da preservação, da conservação, da soberania amazônica. Foi secretário de cultura do governo Jorge Viana e conhece o seu Estado sob os mais diversos aspectos: o político, o ambiental, o econômico, o humano, o cultural...  

 

Eu  o jornalista Elson Martins o entrevistamos no último dia da I Conferência da Amazônia, em Belém, 2000. Durante a tarde, com muita chuva, havíamos visto com encantamento o Toinho envolver e silenciar um público de mais de 500 pessoas ao falar da ideologia da floresta, da voz própria que deve ter a Amazônia, deixando a poesia fluir do discurso, no seu jeito autêntico de ser acreano.

 

Ao anoitecer, numa atmosfera ainda cheirando a chuva, nas margens do rio Guamá, onde aconteceu a Conferência, Toinho nos falou da experiência da florestania, através da qual o Acre amplia a proposta da cidadania e planta uma semente que muda a mentalidade da população. Falou do modelo de desenvolvimento que o Acre escolheu, valorizando a vivência dos povos da floresta, procurando extrair dela as idéias e os conceitos, formando uma nova ideologia que possa guiar o governo. Todas as idéias de Toinho Alves levam em conta as diferenças da Amazônia. Confira neste trecho da fala do poeta.

 

“Um governo que entre e passe quatro anos, construa ruas, pavimente estradas, pague em dia o funcionalismo, faça escolas, inclua, mas que não mexa na mentalidade da população, quando ele sair, a mentalidade vai continuar a mesma. E aí as pessoas vão voltar para o padrão de inferioridade. O pouco de justiça que foi conquistado vai ser derrubado, porque a injustiça permanece na cultura das pessoas. Um governo tem que mudar essa cultura, e pra ele mudar, tem que se abrir a novas idéias, não pode mais rezar pela antiga cartilha sócio-econômica. Democracia de verdade só se consegue se houver uma participação intensa de todo mundo. No caso da Amazônia, isso significa levar em conta as diferenças. As novas formas de democracia tem que ser construídas com novos valores. Essa experiência prática da Amazônia entra alargando todas as fronteiras. O Brasil pode não ser tecnologicamente tão avançado quanto os Estados Unidos, mas tem  certos prazeres na nossa vida de brasileiro que são insubstituíveis. Nós temos uma maneira de ser feliz, de ter qualidade de vida que é muito nossa. Os critérios de julgamento, os parâmetros, medidas de desenvolvimento, nós mesmos vamos ter que fazer. Os índices de medir desenvolvimento que os outros criaram não servem para nós, porque, no máximo, levam em conta a cidadania, mas não levam em conta a florestania.”

 

Leia mais Toinho Alves no blog www.oespiritodacoisa.blog.uol.com.br


 Escrito por Luli às 11h58
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Oba! Hoje é domingo e vamos almoçar no Maguila...

 

*Maguila é um dos milhares de nordestinos que se aventuram pelas mais diversas paragens brasileiras em busca de trabalho. Saiu do Maranhão há quinze anos e aportou em Macapá com toda a garra de quem sabe que somente o trabalho árduo vai lhe garantir mesa farta e sono tranqüilo. Chama-se, na verdade, Alfredo Teixeira de Novaes. Maguila vem do seu porte físico e da semelhança com o famoso pugilista brasileiro. Diz que não se diverte, que jamais alguém o encontrou a passear pelas praças ou pelos clubes de diversão, que sua vida é absolutamente dedicada ao trabalho. É verdade. Mas é verdade também que o grande prazer proporcionado pela diversão Maguila tem no trabalho. Quem freqüenta o seu restaurante, que está de portas abertas para os ventos cheirando à floresta trazidos pelo rio Amazonas, compreende que ele não precisa procurar diversão em outro lugar. A paisagem lhe inspira leveza à alma.

 

Quando chegou ao Amapá, Maguila tinha em mente fazer concurso para um emprego no governo do Estado, mas logo compreendeu que, sem estudos, passar nas provas seria mais difícil do que se dedicar a um negócio próprio, por mais trabalho que isto lhe desse. Com o parco recurso que possuía, abriu um boteco na beira do rio, que logo lhe rendeu uma freguesia fiel e diversificada, que ia em busca do peixe regional bem preparado, do seu incomparável camarão pitu, do caranguejo...  Aos poucos, Maguila acrescentou algo mais ao cardápio do seu bar: a conversa descontraída com os clientes, de onde brotou uma relação de simpatia que atrai novos e velhos visitantes.

 

Maguila acha graça quando lembram a ele que em certo domingo foi estrela do quadro “Me leva, Brasil” do programa Fantástico, onde mostraram a peculiaridade do seu bar, que, em grandes letras pintadas na parede, proíbe que os clientes se manifestem com beijos e abraços. Diz que gostaria de ter tido oportunidade de mostrar ao Fantástico as delícias do seu cardápio, como o camarão pitu, os filhotes, a dourada... Aos 45 anos de idade, Maguila é hoje uma dessas figuras que se incorporam ao lugar onde vivem, passando a constituir parte fundamental e inseparável de sua vida e de sua paisagem. Plantou raízes no Amapá.

 

 

*trecho de um texto de nossa autoria publicado no livro Banco dos Sonhos, do Banco do Povo do Amapá - abril de 2002.

 Escrito por Luli às 12h23
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