O Vôo da Garça


Crianças do rio

 

 

A chuva acordou tarde no dia 15 de março de um ano que partiu há tempos, numa viagem de barco que durou vários rios. Era mais de meio-dia quando deu as caras, e parece ter vindo apenas para nos informar que não queria conversa com a paisagem. Veio breve e foi embora sem ao menos permitir um registro em fotografia. Esperávamos por ela para nos distrair da monótona companhia da solidão, que andava viajando nos rios por aquela época e deu de a gente embarcar no mesmo navio.

 

Ainda lamentávamos a partida da chuva quando começaram a chegar as crianças. Era no Estreito de Breves, num eito de águas bem perto de onde o rio faz uma vírgula, no longo caminho entre Belém e Macapá. Com seus barquinhos desafiando a maresia, elas vieram assediar nosso navio. Nós as vimos do tombadilho, eram meninas e meninos, pequenos, grandes, morenos, caboclos. Vieram buscar comida e presentes dos navegantes. De dentro do navio, nós lhes lançamos sacolas plásticas com biscoitos, pedaços dormidos de pão, laranjas, sandálias usadas, camisas, caixas de fósforos e até um velho baralho, manchado e obsoleto. Era o que tínhamos. É o que os navegantes que viajam rios pela Amazônia sempre têm. Jogamos também três livros, esperançosos de que lhes servissem como alimento para a alma, e continuamos viagem imaginando a leitura na rede, na sombra da samaúma, na beira do rio, onde o barquinho espera paciente por outro navio.

 

Ali no tombadilho, à espera da chegada da embarcação ao seu ponto final, “fartos de ver as caras uns dos outros”, tentamos imaginar como seria nossa vida se habitássemos uma beira de rio, sob uma casa de paxiúba, que provavelmente é muito mais confortável que as nossas casas abafadas da cidade, construídas no padrão das casas do sul do país. No nosso caso, particularmente, seríamos infinitamente mais felizes, respirando o melhor ar do mundo, que é o da Amazônia, com todo o açaí e todos os peixes à nossa disposição. Isto foi Antônio Alves, poeta do Acre, quem nos ensinou. “Pode-se ter felicidade vivendo na Amazônia, desde que seja uma vida amazônica, e não uma vida tentando copiar padrões de vida de outros lugares que não são adequados para a nossa região”.

 

Na longa estrada do rio, enquanto queimávamos pestanas sobre o sentido da vida, fomos vendo terminar tudo o que havia para dar às crianças. E muitas delas tiveram que remar de volta à margem, sem o presente esperado de um navio esperado pelos vários dias em que atracamos em Belém. Foi quando uns navegantes que nunca perderam a infância tiveram a feliz idéia de lhes jogar balões. E então os balões começaram a voar do navio um depois do outro, como um bando de pássaros multicoloridos que mansamente pousavam nas águas e depois eram capturados pelas crianças.

 

Tomara que a solidão, também farta de ver as nossas caras, não tenha se jogado nas águas e se agarrado a um dos barquinhos em busca de outra alma feliz para perturbar.

 Escrito por Luli às 10h39
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Infância no Jornal

 

O Jornal Nacional de hoje apresentou três reportagens cujas protagonistas eram crianças. Nenhuma delas falava das alegrias da infância, do sabor de ser livre para inventar a vida, do sonho com um futuro limpo e feliz. Nenhuma falava que uma medida urgente, esperada há séculos, foi finalmente tomada pelos governos para resolver para todo o sempre todos os tipos de exploração infantil, a violência contra o menor.

 

A primeira mostrou o menino brasileiro de 13 anos de idade que ficou preso num buraco de dez metros de profundidade por nove dias. Pobre criança... quantas vezes deverá ter visto a morte de perto nas noites de solidão e fome dentro do buraco. Pelo menos foi encontrada, viu o quanto é amada e ganhou novos amigos. Está feliz, apesar do trauma que provavelmente ficará para sempre.

 

Mas num buraco grande mesmo estão as crianças da segunda reportagem, que aprendem a guerrear na Palestina, a instalar bombas nos campos inimigos, a defender seu território da ocupação de Israel. Aquele chavão da infância perdida aqui cabe como uma luva, porque o mundo nada vai fazer para curar o ódio que já habita seus pequenos corações. Israel muito menos.

 

Entre os 20 milhões de pessoas que já morreram com Aids pelo mundo afora, quantas eram crianças? A terceira reportagem mostrou os órfãs da Aids e quanto ainda é preciso ser feito para controlar a epidemia por todo o planeta. Os países ricos devem demais a esta luta.

 

E nós, só vamos ficar assistindo ao Jornal Nacional?

 Escrito por Luli às 21h35
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Quem nunca viu o Amazonas...

 

Julho chegou no rio Amazonas. Desde janeiro que o rio esperava, saudoso dos meninos que correm por suas margens com a alma em férias. Ainda agora, para comemorar este princípio de mês, demos uma volta a pé pela orla e capturamos suas mais belas poses na máquina fotográfica. Uma das melhores é a do rio brincando de balançar um barquinho que vinha acenando das ilhas do Bailique, carregado de peixes e camarões. Sinais da generosidade das suas águas barrentas para as vidas da região. Um milhão de toneladas de peixes podem ser pescadas a cada ano. É o potencial do Amazonas.

 

Quem nunca viu o Amazonas não faz idéia de quanta água. É de fazer inveja ao Mississipi, ao Nilo, ao Ienissei, ao Danúbio... A Europa toda não tem tanta água doce. E a vastidão é tamanha que até os peixes do mar vêm ver. Tubarões entram, vez em quando, e se perdem Amazonas adentro. Francisco de Orellana, navegador espanhol que andou navegando pela Amazônia lá pelos idos de 1500, também se perdeu e demorou um tempão pra se achar. Foi o primeiro a navegar toda a extensão do rio Amazonas, sete mil quilômetros, desde o Pacífico até o Atlântico. Desapareceu quando tentava fazer o caminho de volta, nas entranhas da Ilha do Marajó, no Pará, por onde o rio brinca de labirinto.

 

Quem nunca viu o Amazonas não sabe como ele é largo no seu encontro com o Oceano Atlântico, onde ele despeja diariamente mais água do que toda a água que despeja o londrino Tâmisa durante um ano inteiro.

 

Pois julho chegou devagarzinho para não nos dar susto. Agora, enquanto olhamos o rio, sentados no arrimo do cais, tomando pequenos goles de água de coco, percebemos o quanto nossa alma também viaja em férias neste princípio de mês.

 

 

 



 Escrito por Luli às 11h32
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