 |
Encontro com Marina
Em setembro de 1999, Elson Martins, jornalista e diretor da Folha do Amapá (na época), deu-nos um exemplar da edição de nº 06 do jornal O Acre, de fevereiro de 1998, pois havíamos demonstrado curiosidade pela vida política de Marina Silva. “Ela é a maior referência positiva da consciência amazônica da atualidade”, dizia o Elson, em trecho da reportagem central, referindo-se a Marina, a senadora para a qual “o fundamento da vida é o amor”.
Em Belém, na I Conferência da Amazônia, julho de 2000, estávamos determinados a não voltar ao Amapá sem uma entrevista com a senadora pelo PT do Acre, uma referência de luta e de vida para muita gente. Vimos sua palestra, feita de frente para o rio Guamá, com o encantamento de quem descobre uma maneira de passar a limpo suas idéias sobre o mundo.
Abordamos Marina ao final da entrevista coletiva, quando ela já estava saindo. Dissemos a ela que queríamos uma exclusiva para a Folha do Amapá, e devemos tê-lo feito com uma boa dose de apelo, pois ela sorriu, disse que estava a caminho do hotel, onde apanharia suas malas e iria para o aeroporto, mas que, se estivéssemos dispostos a acompanhá-la de carro até o hotel, ele nos concederia, no trajeto, a entrevista. Decididamente, cada vez mais, Marina Silva nos encantava.
Na breve entrevista, que durou apenas o tempo de chegar ao hotel, a senadora falou do modelo de desenvolvimento que o Sul queria importar para a Amazônia, como se fosse a estrela de Davi, e enfatizou a necessidade de se introduzir o sentido almático em todas as ações da política, na busca de um país mais humano. Aí vai um trecho da fala da senadora, prova incontestável da competência feminina para a política.
“O desenvolvimento sustentável é a estrela de Davi para a Amazônia, no sentido de que é o nosso objetivo a ser seguido. Mas a gente não pode imaginar que ele em si já seja uma panacéia para todos os problemas ambientais que temos na Amazônia, porque o desafio de preservar esse patrimônio e ao mesmo tempo desenvolver uma economia que responda às necessidades sociais, culturais de cerca de 20 milhões de habitantes é um grande desafio. O desenvolvimento sustentável para a Amazônia tem que estar acompanhado de cinco critérios de sustentabilidade: econômica, social, ambiental, cultural e política”.
“Para se chegar à sustentabilidade política, é preciso, primeiro, ter uma visão da política que não nos coloque como sendo os donos da verdade e aqueles que querem a hegemonia dos processos políticos a partir da nossa visão. Para agirmos politicamente dentro de uma relação de sustentabilidade, nós precisamos instituir parcerias, que não precisam pensar igual a gente, como nós achávamos no passado. No caso, nós precisamos de critérios, sim, critérios éticos, morais, que sejam duradouros. Em cima desses critérios, nós podemos fazer alianças pontuais, que até podem ser passageiras, e aquilo com que não é possível concordar em determinado momento, numa determinada ação, a gente tenta tornar viável numa outra ação. O importante é não quebrar as pontes para a realização dos grandes projetos que precisam da participação de amplos contingentes da sociedade e das mais diversificadas formas de pensamento”.
Escrito por Luli às 15h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O Vôo da Garça
Segundo nosso queridíssimo amigo Elson Martins, que foi embora para o Acre no ano passado – empurrado pelas nuvens escuras que permeiam os nossos céus nos últimos tempos – “o Amapá não vai acabar tão cedo”. Sob a esperança nesta verdade e inspirados nas chuvas que continuam a se precipitar sobre Macapá em pleno julho, voltamos a escrever um pouco. E cheios de idéias, vamos avisando. Uma delas foi a criação deste blog, que vem substituir aquele antigo, chamado Lugar da Chuva, preterido pela idéia de nos mudarmos para a beira do Araguari e plantar melancia e pupunha. Mas ficamos só na idéia. Este vem com o título do texto de apresentação do meu livro Lugar da Chuva- Crônicas do Amapá. O Vôo da Garça, escrito pelo Elson, é um texto tão delicado que nem parece ter sido escrito pra nós (eu).
Pois O Vôo da Garça também deverá ser o título do nosso próximo livro, que escrevemos um pedacinho todos os dias e que sonhamos publicar antes do final de 2004. Tal como o Lugar da Chuva, O Vôo da Garça tem textos que viajam pela Amazônia, registrando impressões e sentimentos. O primeiro tem textos apenas do Amapá. O segundo passa pelo rio Tapajós, pela Serra do Cachimbo, por Fordlândia, pelo rio Negro, além de outras passagens pelo Amapá, nosso torrão predileto e maior fonte de inspiração. Aí a seguir transcrevemos um pequeno trecho de “Travessia da Serra do Cachimbo”, um dos textos que deverá abrir o livro porque conta da nossa chegada na Amazônia há 20 anos, e aproveitando que este blog é nosso e aqui ninguém pode nos impedir de fazer propaganda do nosso trabalho. Leia-nos, querido leitor, por favor, porque conforme Mário de Andrade em seu Prefácio Interessantíssimo, todo escritor acredita na valia do que escreve. E nós não somos exceção. Beijos agradecidos.
“Tinha menos de vinte anos quando atravessei a Serra do Cachimbo, desde o extremo norte do Estado do Mato Grosso até o sul do Pará, por uma tortuosa estrada que levou três dias para alcançar o fim. Foi meu primeiro contato com a Amazônia. Quem me acompanhava era meu pai, que já havia trilhado o caminho por duas vezes e há pouco mais de um ano havia se instalado para sempre em terras amazônicas, levado pela febre da ilusão de uma vida melhor que no seu velho Paraná.
Eu nunca antes tinha pensado em tanto verde e tanta estrada. Estava enfim revelada uma Amazônia dura, de temperamento intempestivo, e foi preciso adormecer todos os monstros que me habitavam para suportar a surda escuridão das viagens noturnas. Pelo dia eram os cheiros das ervas selvagens que preenchiam o torpor das horas, os animas que atravessavam a estrada e sumiam antes que pudéssemos identificá-los, os macacos que se exibiam em árvores tão altas quanto são baixas as nuvens quando o céu se prepara para chover. O canto dos pássaros inspirava lembranças de antigas canções e a saudade do que ficara para trás”. ...
Escrito por Luli às 22h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |



|
 |