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Crianças do rio
A chuva acordou tarde no dia 15 de março de um ano que partiu há tempos, numa viagem de barco que durou vários rios. Era mais de meio-dia quando deu as caras, e parece ter vindo apenas para nos informar que não queria conversa com a paisagem. Veio breve e foi embora sem ao menos permitir um registro em fotografia. Esperávamos por ela para nos distrair da monótona companhia da solidão, que andava viajando nos rios por aquela época e deu de a gente embarcar no mesmo navio.
Ainda lamentávamos a partida da chuva quando começaram a chegar as crianças. Era no Estreito de Breves, num eito de águas bem perto de onde o rio faz uma vírgula, no longo caminho entre Belém e Macapá. Com seus barquinhos desafiando a maresia, elas vieram assediar nosso navio. Nós as vimos do tombadilho, eram meninas e meninos, pequenos, grandes, morenos, caboclos. Vieram buscar comida e presentes dos navegantes.
De dentro do navio, nós lhes lançamos sacolas plásticas com biscoitos, pedaços dormidos de pão, laranjas, sandálias usadas, camisas, caixas de fósforos e até um velho baralho, manchado e obsoleto. Era o que tínhamos. É o que os navegantes que viajam rios pela Amazônia sempre têm. Jogamos também três livros, esperançosos de que lhes servissem como alimento para a alma, e continuamos viagem imaginando a leitura na rede, na sombra da samaúma, na beira do rio, onde o barquinho espera paciente por outro navio.
Na longa estrada do rio, fomos vendo terminar tudo o que havia para lhes dar. E muitas crianças tiveram que remar de volta à margem, sem o presente esperado de um navio esperado pelos vários dias em que atracamos em Belém. Foi quando uns navegantes que nunca perderam a infância tiveram a feliz idéia de lhes jogar balões. E então os balões começaram a voar do navio um depois do outro, como um bando de pássaros multicoloridos que mansamente pousavam nas águas para ser capturados pelas crianças.
Tomara que a solidão, farta de ver as nossas caras, não tenha se jogado nas águas e se agarrado a um dos barquinhos em busca de outra alma feliz para perturbar.
A foto é do Manoel do Vale. Hoje não consegui colocar o crédito ao lado da foto.
Escrito por Luli às 15h54
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Triste fim da natureza

Há dias que estava de olho nas jacas do terreno baldio ao lado de casa. Aliás, baldio é uma palavra esquisita. No terreno não há casa, portanto não há vida humana habitando o lugar. Mas há quatro árvores morando lá. E se, segundo o dicionário, baldio quer dizer “que não é aproveitado”, então certamente que não é aproveitado por gente, porque as quatro árvores, os bem-te-vis, os japiins, alguns pequenos pássaros e até um gavião aproveitam muito bem o espaço.
Voltando... há muito eu queria uma jaca daquelas, mas nas outras temporadas os meninos de um bairro distante chegaram primeiro e levaram tudo. Pois ontem à tarde atravessei o cercado e, de ripa em punho, cutuquei uma jaca “de vez” até ela cair. Só então percebi a desgraça da pobre família das quatro árvores. Foram todas assassinadas. Ou melhor, estão sofrendo homicídio lento, aquele que dura meses e vai fazendo o ser definhar devagar. Cavocaram o tronco da infeliz família. Cavocaram fundo e em círculo, para que as quatro vão morrendo sem parecer que foi crime. Primeiro minha amiga jaqueira deixará de dar frutas, depois vai perder as folhas, seus galhos ficarão magros, e por fim vai apodrecer e cair. Provavelmente o dono do terreno, suspeito em potencial, quer construir ali uma casa, um prédio, pensa que finalmente vai tornar o terreno útil.
Fiquei triste. Fiquei mesmo abalada com o que vi. Encabulei-me com a jaca que trazia nas mãos, parecia que me aproveitava da fragilidade da minha amiga jaqueira, senti-me participante do crime, não apenas por colher a fruta, mas por morar ao lado e não ter visto nada. Passei meses me comprazendo com a beleza do vento soprando os cabelos da jaqueira, com a alegria dos japiins, que passaram a vir em grupo voejar entre os galhos, cheguei a escrever sobre isso algumas vezes... enquanto toda aquela vida estava em perigo.
Sinto que isto desencadeia em minha vida uma grande crise. Questiono a devastação da Amazônia, a exploração irracional, os projetos que ameaçam a sua soberania, mas não pude defender ao menos as pobres árvores que vejo todos os dias no quintal ao lado de minha casa. Perdi a vontade de comer a jaca.Perdi mais um pouco do meu respeito pelo ser humano.
Escrito por Luli às 19h46
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Fotos: Manoel do Vale
Domingo no Chalé
O domingo foi quente demais. Finalmente terminou o inverno, o que, pra mim, não traz muita alegria. Minha alma gosta é de chuva. Sorte que é que há uma insinuação de primavera no céu e na terra destas paragens. Lula Jerônimo, toda vez que me encontra, ri de mim: “E agora, sem chuva?” Acho que ele pensa que não vou conseguir atravessar incólume os seis meses de verão.
Pra dizer a verdade, quase não consigo atravessar este domingo. Então fomos (eu, Manoel, Lucas e Júlia) invadir o chalé do Carlos, um dos meus vizinhos do lado esquerdo. Aliás, que idéia genial a do Carlos. Um achado dentro desta Amazônia que a gente quer sustentável.
O chalé, bem em frente ao Sebrae, foi construído para ser exposto na Rodada Internacional de Negócios da Madeira, no ano passado, mas com a intenção de ficar lá para todo o sempre, transformado num espaço multifuncional. Toda a estrutura é de maçaranduba e cumaru, madeiras encontradas em abundância na Amazônia. A idéia é que o lugar tenha hidromassagem, sauna, ducha, queda d’água, banho de ofurô, bar, biblioteca, adega, espaço para exposição artística...
As reticências do outro parágrafo querem dizer que o chalé terá ainda muitas outras coisas, mas há quase um ano parado, procura parceiros para entrar em funcionamento. Um desperdício de tempo. Eu, se tivesse recursos, já teria entrado em sociedade com o Carlos há muito tempo.
Enquanto não temos pernas para isso, temos ido lá tomar ducha por entre as bananeiras. Um luxo. Uma massagem na alma. Sensação de liberdade absoluta. Meu amigo Carlos é um sonhador que sabe colocar o sonho em prática. Veio da Bahia e provavelmente nunca mais vai sair da Amazônia. Transformou nossa quente tarde de domingo em um momento de prazer total. Domingo que vem vou levar umas cervejas.
Escrito por Luli às 19h23
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Olha Setembro!!
Foto: Manoel do Vale 
Eu não sabia que setembro havia chegado. Soube hoje, e levei um susto. Um susto bom. Agora está tudo explicado. Esta febre na alma, o descompasso do peito, esse ar abobalhado de quem pressente que algo inexplicável e muito bom está por vir, o sorriso solto, o sonhar com borboletas... Vou ler Rubem Braga para tentar traduzir em palavras este sentimento de setembro. E eu que pensei que não sobreviveria a mais um agosto.
No caminho da casa do Amaury há ipês amarelos carregados de flores, ele me disse. Na Elieser Levy com a Mendonça Júnior também tem um, de onde Manoel colheu uma flor para enfeitar meu último domingo. Trouxe-a junto com os pães, pela manhã, prenunciando setembro, pois domingo passado ainda era agosto. E da minha cor predileta. Amarelo.
E ainda dizem que a Amazônia tem só duas estações: o inverno e o verão. Como explicar que os ipês, os jambeiros e as acácias estão florindo? Estou há dois parágrafos nesse preâmbulo para dizer, na verdade, que não há nada como viver na Amazônia. Em qualquer mês há uma chuva, um rio, uma árvore, um passarinho, uma paisagem para encantar.
A jaqueira, minha vizinha e amiga, está de novo cheia de jacas sob os braços. E ainda acha disposição para abrigar os japiins que vieram com as famílias construir ninhos em suas folhagens. Agora, de minha varanda, se ouve durante o dia todo os cantos dos diversos pássaros que o japiim imita. Enquanto isso, além de comer a ração das minhas cachorras, os bem-te-vis entram na minha cozinha para beliscar as bananas sobre a mesa. Ingratos. Sorte deles é que também tenho alma de passarinho. E, com licença, que vou dar uma voltinha e pousar sobre um dos galhos desse maravilhoso ipê que o Manoel fotografou na praça da Conceição de minha Macapá.
Escrito por Luli às 19h11
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Poema pra você
De Marko da Lama, extraído da revista Pará Zero Zero
Foto: Manoel do Vale
Desaba de manhã,
como uma grande implosão,
esta segunda-feira,
e mesmo com a fiel astenia
faço-lhe referências em meu dia.
Há vários dias
que estou com você por aqui.
Pra você é esse poema tossido,
palavras de catarro são para você,
vírus verbais são para você.
Esse poema é para você
(fique vulnerável),
esse poema é para você adoecer,
é para você hospitalizar-se
em meu esquecimento,
é para você apodrecer,
esse poema é para você morrer...
Escrito por Luli às 17h12
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Coisas que eu disse pra mim
Hoje, às seis e meia da manhã, em frente ao fogão, com uma chaleira de água na mão: “Meu Deus, acabou o fósforo!”
Seis e quarenta, na frente do portão de casa, com a intenção de comprar fósforos, olhando para todos os botecos fechados e diante da impossibilidade de fazer o café e depois sentar na rede, lembrando do Manuel Bandeira, e como ele, ficar humildemente pensando na vida e nos homens que amei: “Minha vida por uma caixa de fósforos...”.
Estava dando meu dia por perdido quando avisto, do outro lado da rua, o amigo Francisco Terragônio, poeta, boêmio, com a maior cara de quem estava indo dormir, mas pronto para acender um cigarro, com uma caixinha de fósforos novinha. “Bem-vindo, anjo da guarda”.
Às sete horas da manhã, já tomando meu café na rede da varanda, onde os bem-te-vis vêm comer a ração das minhas cachorras: “Lá vem aquela mala de carro de som do Moisés Alcolumbre...”
Vou para a escola cumprir minha obrigação de funcionária pública dedicada e lá digo uma série de coisas pra mim mesma. Uma delas, quem sabe a menos prosaica, disse depois de ter ouvido uma professora defendendo a idéia de vender o voto, mesmo que seja por duas telhas de brasilit, pois não acredita mais nos políticos: “E na hora do almoço ainda vou ter que agüentar os quinze minutos do Sebastiãozinho no horário político”. A professora me pergunta “o que?”
Fim do expediente na escola. Vou buscar minha filha em outra escola. Na volta encontro um amigo muito querido que sentiu minha falta em um evento de ontem. Vou almoçar feliz, apesar do Sebastiãozinho enchendo lingüiça na telinha: “A vida é a arte do encontro...”, suspiro, sem me lembrar do autor. Dessa vez é minha filha quem diz “o que?”
Agora, enquanto atualizo este blog, esquecido por mais de dez dias, chega um visitante e começa a falar da pesquisa do Ibope divulgada hoje em Macapá. Então digo uma das últimas do dia, pois não costumo falar sozinha depois das 22 horas. “A Janete já é prefeita, meu blog querido!”
Escrito por Luli às 21h23
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Flores da Amazônia para o Elson...
Foto: Manoel do Vale
Vamos logo avisando aos acreanos que nós, amapaenses, queremos o Elson Martins de volta. Quem mandou eles deixarem um filho daquelas cabeceiras de rio por tanto tempo espalhando por aqui as sementes das suas boas idéias? Agora ele é nosso, embora saibamos que nasceu no Acre. Nascer, por nascer, nós (eu) nascemos no Paraná... mas quando nos perguntam de onde somos, somos da Amazônia. Estamos há vinte anos por aqui, vigiando as chuvas, as árvores, os rios, as garças e outras aves, e escrevendo alguma coisa.
O tempo que o Elson Martins viveu no Amapá (e ainda vive, pois nos recusamos a aceitar que passe mais tempo lá do que aqui) foi suficiente para fazer dele um amapaense de raiz. Não só pelo tempo, que esse às vezes passa por nós adormecendo nossas vontades... o Elson cuidou das nossas almas e ajudou muito jornalista perdido a encontrar a direção certa.
Se hoje a gente não consegue engolir o instinto oportunista de muito jornalista que tinha tudo pra ser gente boa e que atua nos nossos torrões, é culpa do Elson. Graças também a ele, fazemos textos honestos, não babamos ovo em cima do poder, nos mantemos firmes na nossa ideologia de amor à Amazônia e somos felizes com a nossa disposição e a nossa esperança de poder fazer sempre mais com interesse no bem coletivo.
Elson Martins está conosco por estes dias, nos trouxe novas idéias e fôlego para as idéias antigas. Enquanto o Jorge Viana agüentar sua ausência no Acre, vamos aproveitando sua energia renovadora e aprendendo a ser um pouco como ele, se Deus nos ajudar. E vamos avisando de novo: o Acre que se cuide!
Escrito por Luli às 19h36
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Se fosse sábado...
Esta segunda-feira nos pegou mesmo de surpresa. Ontem à noite fomos dormir embalados pela esperança de poder acordar em plena manhã de sábado, e só então fazer o que poderia ter sido feito neste fim de semana. Mas este dia ingrato em que temos que estar em pé às seis horas há de nos compensar pelo desaforo de ter que levar nossas meninas para a escola e depois passar toda a manhã atrás de uma mesa, dentro de uma sala refrigerada e sem janelas, enquanto lá fora o sol brinca de colorir as ondas do rio e o vento de perseguir os galhos das árvores.
Pensamos nisso antes de nos levantar. Choveu durante a noite, provavelmente, e nós nem ouvimos. É a cor do dia que nos diz. Desligamos o despertador do telefone celular que de dez em dez minutos grita que já é hora, e fechamos os olhos para a claridade pálida da janela. Ficamos uns instantes pensando sobre o final de semana e nos lembramos do que nos disse um amigo, no sábado à noite, sobre a meditação.
Meditar, que boa lembrança. Imaginamos que deve ser bem relaxante meditar ao amanhecer. Tentamos... mas devemos ter tentado da forma errada, porque não se passaram três minutos antes de tornarmos a dormir. Então aprendemos algo importante: meditar deitado ao amanhecer é perigoso para a pontualidade. Eram seis e meia e estávamos atrasadíssimos para a segunda-feira.
Se fosse sábado, poderiam ser oito, nove, dez horas e não importaria. E então iríamos comprar peixe e extrair a poesia que há no cais do Igarapé das Mulheres, onde “as margaridas fazem cor”, iríamos procurar os restos mortais do velho trapiche, que a Márcia nos disse ter visto, iríamos nos sentar no arrimo da beira do rio e ficaríamos esperando um barquinho de papel, uma garrafa de náufrago... ou apenas ficaríamos a lembrar daqueles olhos “grandes, redondos e pretos”, que “tempos depois ainda ficam pregados na gente, como botões”.
Já é quase noite, e a compensação que eu esperava deste dia ingrato não veio. Mas veio uma crise alérgica respiratória que me impediu de trabalhar durante a tarde e de sentir o cheiro da jaqueira minha amiga que mora no quintal ao lado. Let it be... semana que vem tem outra segunda-feira, mas o que há de bom nisso é que antes dela tem um sábado.
Escrito por Luli às 20h47
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Dois dias para viver...
Final de semana. Dá uma vontade de não fazer nada.
Segunda-feira é que as boas vontades vêm. De que?
De tomar banho de rio... 
De contemplar a imensidão marítima do rio...
Navegar de barquinho...
Habitar uma casa cabocla ...
Olhar o sol se pôr...
Todas as fotos são do Manoel do Vale.
Tenha dois bons dias para viver.
Escrito por Luli às 11h23
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Pobre da nossa rica floresta!
Foto: Manoel do Vale
Não bastava os cargueiros estrangeiros estarem surrupiando a água doce da Amazônia, agora nos vem esse projeto estapafúrdio que pretende privatizar 15% da região amazônica. Engraçado... ao longo de tantos e tantos governos, nunca houve um projeto sério que buscasse a sustentabilidade da Amazônia. Salvo em casos à parte, como o do Amapá, que colocou em prática o PDSA, um programa fundamentado na Agenda 21 que criou raízes nas florestas, nas águas e na população. Agora andam dizendo que a exploração dos 50 milhões de hectares de floresta vão garantir a sustentabilidade da Amazônia, que consome 30 milhões de metros cúbicos de madeira por ano.
Não dá pra acreditar que isso esteja acontecendo no governo do Lula, que tanto discursou em torno da soberania da Amazônia em N conferências pelo Brasil afora e pelo exterior. “Não é privatização”, diz o Capobianco, do Ministério do Meio Ambiente. Muito bem, as terras serão devolvidas depois de exploradas e o Brasil vai ganhar todo ano a metade do orçamento anual do MMA, cerca de R$ 200 milhões. Só quero ver como é que eles vão fazer pra fiscalizar tanta floresta e evitar que os “inquilinos” extrapolem os limites da exploração.
Se resolverem fazer mesmo uma fiscalização séria, o dinheiro gerado vai ser todo gasto nisso. E as populações tradicionais da Amazônia, ganham o que nessa história? Sou contra. Acho, sinceramente, que empresas nacionais ou estrangeiras que venham explorar a floresta por períodos de 05 a 30 anos, com raras exceções, vão entregar a floresta dilapidada, e aí não vai ter multa que regenere nossos verdes. Não em menos de um longuíssimo prazo.
Escrito por Luli às 17h59
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Com uma lua dessas...
Diversos blogs falaram hoje sobre a presença da lua cheia em nossa noite de ontem. Mas poucas pessoas no mundo tiveram a oportunidade de vê-la nascendo “imensa e amarela tão redonda a lua” por trás das longínquas paragens do rio Amazonas. Só nós, que vivemos no trecho de sete mil quilômetros que o Amazonas percorre desde o Pacífico até o Atlântico. Macapá é mesmo singular. É a única capital do Brasil por onde passa esse rio que carrega essa lua.
Deve ser confiando na imensidão da luz da lua que a CEA nunca mais trocou as lâmpadas do Trapiche Elieser Levy. Nós, que vagamos distraídos noite em quando pelas beiras do rio, já ouvimos reclamações de turistas, e recentemente de um jornalista do sul do país. A verdade é que em outros tempos esse trapiche foi objeto da poesia de quem verseja e de quem compõe. Canções, crônicas e poemas, saídos da alma de diversos artistas, tiveram o trapiche como inspiração. Não deve custar tanto trocar as lâmpadas. Todo mundo sabe que o trapiche foi construído pelo Capi. Não adianta tentar apagá-lo. Literalmente.
O parque da Fortaleza também está às escuras. Difícil passear por ali à noite sem perder um objeto, um cachorro, uma criança... Não foi suficiente o tempo que o parque passou com aquele tapume ridículo que escondia uma obra que não existia? Agora o lugar está escondido pela escuridão da noite. Mas noite em quando ainda podemos contar com o clarão da lua...
E aquele tapume que começa acima do Macapá Hotel, indo até a frente da casa do governador? Quando é que sai de lá? Provavelmente antes de 03 de outubro, e até lá, nós nunca teremos visto a cidade tão feia. Se não fosse a lua atrás do Amazonas para enfeitar nossas noites...

Encontramos esta foto antiga da frente de Macapá e a colocamos aqui sem saber de que é o crédito nem porque o rio está desta cor...
Escrito por Luli às 17h19
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Ruínas em Mazagão Velho
Foto: Alexandre
As ruínas de uma capela do século 18 estão sendo estudadas por arqueólogos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Vila de Mazagão Velho, há pouco mais de 50 quilômetros de Macapá. Celso Dias, que há alguns anos habita aquelas redondezas, disse-nos que foram encontrados restos mortais de militares sob o solo, dentro da capela. As patentes foram identificadas pelos botões que ficaram das fardas. O pessoal de Mazagão é que não nos pareceu satisfeito com a exploração. Soubemos que ninguém da comunidade foi consultado para que a pesquisa arqueológica se instalasse no lugar. Nós, que estivemos por lá, perdidos pela festa de São Tiago, perguntamos o seguinte: tudo o que tem sido encontrado tem sido levado pra onde? Porque o povo de Mazagão não sabe. Nem nós.
A povoação de Mazagão Velho se deu no início do século 18, quando dezenas de famílias vieram da Mauritânia, fugindo da guerra entre mouros e cristãos. A festa de são Tiago atrai para a velha vila milhares de pessoas, todos os anos. Veja-nos visitando as ruínas da capela.
Escrito por Luli às 16h37
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Olhar sobre o rio

O pesquisador Luiz Carlos Prestes Filho, filho de um dos maiores revolucionários da história do Brasil, o Cavaleiro da Esperança Luiz Carlos Prestes, esteve em Macapá dia desses. Disse-nos que achou belíssimo o nosso rio, ele, que anda por todos os cantos do país e conhece rios incontáveis. Que bom receber em nosso torrão um visitante sensível aos encantos selvagens da Amazônia. Conheceu os mais recônditos cantos da fortaleza de São José e demonstrou grande interesse em conhecer outros lugares do Estado, como as ruínas da base aérea de Amapá e o cemitério nazista que está à beira da cachoeira de Santo Antônio, no rio Jari. Luiz Carlos levou daqui o nosso livro, Lugar da Chuva, e através dele, e da visão do nosso rio, nunca mais vai esquecer do Amapá, estamos certos.
Escrito por Luli às 18h01
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Presente do Peixe-orelha
Edson Natale nos presenteou com este seu belíssimo livro: “A história do incrível peixe-orelha”, sensível e envolvente. Sensível porque trata da questão da preservação dos rios, e envolvente porque faz isso numa linguagem gostosa, solta como as águas dos rios por onde nada o peixe-orelha.
A ilustração, de Barmack, encheu os olhos de nossa pequena Júlia e de nossas grandes Maria e Olívia. Fizemos a leitura na cama, antes de dormir, e quando acordamos, pela manhã, nós, que amamos os rios, sobretudo os da Amazônia, tínhamos nos transformado em peixes-boca, e por onde formos, de agora em diante, levaremos às pessoas as idéias do peixe-orelha, de fazer todo mundo um pouco pela preservação desse grande bem que é a água doce.
Edson Natale tem 41 anos, e além de escritor é músico, pesquisador e gerente de música do Instituto Itaú Cultural. Carlos Barmack é artista plástico, compositor e educador. Desenha, escreve poemas, compõe melodias e sonha ser astronauta desde criança.
Escrito por Luli às 15h33
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Foto: ânima
São Tiago na velha Vila de Mazagão
São Tiago está esperando nossa chegada, montado em um cavalo que pisoteia a piçarra da pequena rua cor de poeira que corta a velha vila de Mazagão. Faz 226 anos que está ali, e tem nos esperado durante os últimos dez. Avistamos de longe a crista da pequena capela, o cavalo fazendo círculos em torno de si mesmo e de olhos na multidão que contempla o seu cavaleiro.
Desde o baile das máscaras que estamos por aí, olhando a paisagem, prontos para voltar na hora do Círio. São Tiago vai à frente e comanda o séquito de cavaleiros de branco e vermelho e outros de branco e verde, lembrando a batalha travada na África há três séculos entre mouros e cristãos. Ontem fomos acordados na madrugada pelo espocar dos fogos de artifício e dos tiros de espingarda, e a este sinal vimos o cortejo amanhecido nas festas do arraial, guiado pelos tocadores de tambor, seguir para a casa de São Tiago, onde ia dançar o Vominê. Lá os visitantes tomaram chocolate quente com bolo, servido pelos donos da casa, como reza a tradição da festa, seguiram para a igreja, para louvar os santos no altar e ainda depois entraram incansáveis pelas casas das autoridades da vila, também para dançar o Vominê.
Quase três séculos atrás, a pequena vila de Mazagão Velho foi povoada por africanos fugidos da Mauritânia, no continente africano, quando os portugueses lá ocuparam uma área, construíram o Castelo de Mazagão e tentaram impor a religião cristã aos habitantes do lugar, quase todos muçulmanos. Os colonizadores de Mazagão Velho eram cristãos descontentes com a guerra Por outro lado, o descontentamento com o domínio lusitano e a imposição do cristianismo foi razão suficiente para os mouros darem início a uma guerra que até hoje é rememorada através da festa de São Tiago.
É 25 de julho. As ruas estão acesas sob o sol do verão da Amazônia. O rio Mutuacá já ouviu a missa campal e agora brinca de salvar as crianças do implacável calor. Nós ficamos por baixo das árvores, contando os ninhos dos japiins, olhando passarem os risos das moças morenas sob os olhares dos morenos rapazes. Nas esquinas e por todos os beirais há gente feliz à espera da passagem do Bobo Velho, um espião mouro que cavalgará toda a extensão da rua por onde passou o Círio. Descoberto pelos cristãos, o Bobo é apedrejado. Revivendo o episódio, o povo de Mazagão lhe atira bagaços de laranja.
Ao final da grande batalha, São Tiago e São Jorge caminham no meio do povo. As músicas dos bares de Mazagão Velho vão varar a madrugada, embalando a diversão popular. Nós vamos ficando, e com Tiago e Jorge, vamos no rumo da música, no rumo da lua que clareia na noite as águas do rio Mutuacá.
Escrito por Luli às 17h04
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